O papel da dimensão temporal no processo produtivo e a relação com a demanda (efetiva e latente); a possibilidade micro fundamentada de cálculo no processo produtivo; a impossibilidade do cálculo econômico em um ambiente macro.

§1. A demanda humana; c) Os limites de tempo dentro dos quais se fazem presentes as necessidades humanas: Como definimos e estabelecemos os preceitos que norteiam os conceitos mengerianos de demanda latente e demanda efetiva anteriormente, descreveremos nessa seção do texto a importância da dimensão temporal no que tange a demanda por bens.

O papel da dimensão temporal na demanda por bens, seja de primeira ordem ou não, é essencial. Temos que, invariavelmente, levar em conta a dimensão temporal quando, através do processo produtivo (transformação de bens de ordem superior, combinados com bens complementares seguindo um nexo causal específico, buscamos produzir determinado bem de primeira ordem que satisfaça alguma necessidade específica de um ou mais sujeitos), que, evidentemente, demanda tempo para transformar bens de ordem superior em bens de primeira ordem. Isso não ocorre quando utilizamos de métodos diretos para a satisfação de nossas necessidades, uma vez que não precisaremos utilizar do processo produtivo, mas apenas a coleta de bens de primeira ordem na natureza ou quando os mesmos já estão dados em certa medida para o sujeito.

Mas no contexto do processo produtivo, a dimensão temporal invariavelmente influenciará na demanda, pois, invariavelmente haverá um lapso temporal entre a transformação/beneficiamento/melhoramento do bem de ordem superior para um bem de ordem inferior. Munidos de todos os bens de ordem superior, em suas quantidades específicas para manter o processo produtivo abastecido e funcional, sempre atenderemos os bens de primeira ordem, que serão prontamente utilizados para satisfazer as necessidades dos indivíduos que utilizarem desse bem em questão. Percebe-se também que, enquanto há uma demanda pelo bem de primeira ordem (objeto da produção), há uma demanda efetiva por cada fator de produção, traduzidos materialmente pelos bens de ordem superior.

Para exemplificar o conceito de tempo n'uma produção, Menger utiliza do exemplo do trigo: "Se a demanda que uma nação tem de trigo, para o ano corrente, não estivesse devidamente atendida de forma imediata já no final do outono, com as devidas quantidades do produto, seria muito tarde pretender utilizar, para esse fim, as terras disponíveis, os equipamentos agrícolas e a mão-de-obra; em contrapartida, seria esse, sim, o momento exato para utilizar os citados bens de ordem superior com vistas à necessidade de trigo do ano próximo". Ou seja, para alcançar o determinado fim, que, no exemplo seria o trigo (bem de segunda ordem), não adiantaria desconsiderar completamente o conceito de tempo e tentar utilizar os bens de ordem superior (no caso, a terra) apenas no final do ano para garantir o suprimento desse bem para o ano seguinte, mas sim considerar o processo produtivo dentro da dimensão temporal de cada encadeamento de nexos causais. Entender e utilizar o conceito temporal dentro do processo produtivo (tendo em vista que cada processo de produção e cadeias específicas de nexos causais possuem durações distintas) e utilizá-lo com mais eficiência. 

Além da oferta de determinado bem que participa de um nexo causal, ou seja, a sua disponibilidade dentro de um mercado em que os agentes o utilizam dentro do processo produtivo (uma vez que está inserido em determinado nexo causal), outro fator capaz de transformar demanda efetiva em demanda latente é a desconsideração do conceito temporal dentro do processo produtivo. Nesse último caso, a demanda por determinado bem da cadeia produtiva (ou nexo causal) é interrompida parcialmente por conta do "lag" entre o início da produção e a demanda dos consumidores pelo bem de primeira ordem. Essa desconsideração da dimensão temporal do processo produtivo pode gerar consequências na demanda dos produtores por bens de ordem superior, uma vez que a cadeia de suprimentos pode estar congestionada devido ao atraso do início da produção e da demanda em si.

Menger ainda define um paradigma quantitativo em relação à demanda humana e a produção de bens: "Com base nas experiências em relação às suas necessidades e ao processo de produção dos bens, os homens têm condições de calcular antecipadamente, tanto as quantidades dos diversos bens que precisarão para atender às suas necessidades, como os períodos de tempo nos quais ocorrerá a demanda concreta de cada bem". Essa experiência que, através do processo empírico, permite cada agente produtivo calcular antecipadamente suas necessidades é fundamental para o processo de planejamento econômico. Menger destaca a capacidade dos agentes econômicos de estimar quantidades necessárias e períodos de demanda, baseando-se em suas experiências passadas e observações do processo de produção. Mas aqui há uma diferença abissal entre o cálculo macroeconômico proposto por diversos autores protokeynesianistas, que é o aspecto micro fundamentado nas ações individuais dos agentes econômicos. Menger, ao enfatizar a capacidade de cálculo e previsão dos indivíduos, destaca a importância do conhecimento descentralizado e das informações dispersas na economia. 

Ou seja, através do processo empírico descentralizado dentro das condições específicas de determinado agente produtivo, é possível manter uma previsão mais ou menos acertada da relação qualitativa e quantitativa do processo produtivo e dos encadeamentos dos nexos causais de uma produção. Agora, através de métodos quantitativos e matemáticos, tentar estipular uma quantidade específica para a produção de todos os bens de uma nação específica é uma ingenuidade muito grande acreditar lograr êxito em uma "tarefa de Sísifo".

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